sexta-feira, 4 de março de 2016

Deejay Groovy



Seguindo as entrevistas feitas pela Nest, hoje trazemos o Deejay Groovy de Belo Horizonte, dispensando maiores apresentações, confere ai no decorrer porque vale a pena conhecer esse cara. Maior respeito pelo seu corre irmão, não fazemos entrevistas porque as pessoas são famosas e irão gerar umas curtidas, fazemos porque acreditamos nos seus corres e queremos que outras pessoas conheçam, e é claro, aprendemos muito com todas as vivências compartilhadas aqui. Aproveitem!




Nest: Como e quando você começou na cultura? 

Groovy: Eu comecei ainda no incio dos anos 90, por volta de 1991, quando as informações ainda eram difíceis de serem buscadas, mesmo querendo era difícil saber sobre a cultura Hip-Hop e seus elementos.
Uma fita de vídeo de uma batalha de DJ's (DMC) me fez despertar para o mundo musical na cultura Hip-Hop, em seguida veio o contato com o Graffiti e assim a dança e o RAP. Fiquei divido por algum tempo entre Deejaying e Breaking. Mas no fundo já sabia que queria tocar, ou talvez, tocar e dançar, como era tímido e tinha vergonha de dançar em publico, resolvi me dedicar a tocar e garimpar. Acho que os toca discos me protegem de alguma forma...

Tocar especificamente para B.Boys e B.Girls sempre foi meu foco, desde 1998, ano que comecei. Antes eu apenas sonhava, não tinha condições de comprar equipamentos, os toca discos MK2 sempre foram caros, tive uma Garrard, e um mixer PMX-15 da Gemini por muitos anos, ligava tudo em um Receiver que minha família tinha em casa, e ainda um aparelho de CD.
Antes de ter meus equipamentos, colecionava discos, quando consegui comprar minhas MK's já tinha uma grande coleção de discos.

Tocar para os dançarinos era a maneira de estar próximo dos dançarinos e ter um estilo de vida totalmente B.Boy sendo DJ. Um longo período da minha vida em BH eu sabia mais de danças e seus estilos, fundamentos e histórias que muitos dançarinos...
Neste período BH também mudou muito sua dança, tudo pela música, as músicas “ditam” o stance, a postura do dançarino, abrem a mente, introduzem musicalidade e estilo à sua dança, e isso faz com que a dança evolua e os dançarinos ampliem suas possibilidades.
Ler, pesquisar e estudar sempre foram meu forte na cultura Hip-Hop. No mundo da discotecagem eram as pesquisas por novidades musicais. Sempre gostei de inovar e buscar coisas novas. Tocar o som que todo mundo tocava eu não queria, não que eu não as tocava, pois muitas vezes eram músicas boas e que eu também gostava, tocar as músicas que os dançarinos gostavam não me interessava, fica meio clichê, sei la, é fácil, e me parece muito simples, é como ter todos os clássicos e só ficar nisso. Queria tocar aquelas músicas que ninguém conhecia, eu queria tocar algo que ninguém nunca havia ouvido, e para toca-las, somente garimpando e pesquisando muito. Eu teria de estar de igual ou superar outros DJ's de fora, de outros paises...

Bom, e como tocar algo que ninguém havia ouvido? Como pesquisar Funk internacional estando no Brasil? Nunca iria conseguir tocar algo inédito, iria conseguir tocar algo que aqui alguém nunca havia ouvido talvez.
Eu iria ser mais um tocando Funk e Breaks que algum gringo pesquisou, descobriu garimpando e tocou...

Fui para uma pesquisa até então nunca feita. Os Breaks e Grooves nacionais voltados para os dançarinos de Breakin, eu decidi que a partir do ano de 2006 a minha vida seria dedicada a essa pesquisa, e eu vivi isso realmente, dia e noite, pesquisando e estudando música, lendo livros e revistas, fuçando lojas, blogs e até outros colecionadores, este periodo eu pesquisei apenas Discos brasileiros, entre 2006 e 2010, minha meta era encontrar pelo menos 200 músicas para dançar Breakin sendo brasileiras. Hoje tenho mais de 600 e ainda descubro coisas perdidas do nada nos garimpos do dia a dia, coisas inacreditáveis como Wando, Emílio Santiago, Wanderley Cardoso, pois eram artistas que para mim, de forma ignorante, bem no incio de minha caminhada na cultura, esses artistas não tinham nada haver com o Funk ou Groove.

Estava eu completamente enganado.

Bem, voltando ao começo de tudo, os complementos vieram com a descoberta da coleção de vinil “Ultimate Breaks & beats” através de um amigo DJ (Roger Dee) que possuía alguns exemplares, os vídeos do B.Boy Summit e Battle of the Year (através dos B.Boys Beat e Jack de BH), essas coisas sim mudaram minha vida. E me fizeram ser o que sou hoje!




Nest:.Quem é sua maior inspiração na cultura e porque?

Groovy: Sempre pesquisei e busquei pelos nomes Kool Herc, Grandmaster Flash e Afrika Bambaataa, e através destes DJ's descobri outros nomes que nunca havia lido ou escutado, Grandmaster Flowes, Hollywood, Pete Jones e vários outros nomes que existiram, tiveram grande importância para a cultura mas ficaram apenas ali no Bronx, Brooklyn talvez Queen e Manhattan.
Mas foi através da discoteca do DJ Leacy no Battle of the Year e outros eventos que tudo mudou pra mim. Ele foi o cara nos anos 90 e inicio dos anos 2000, criando assim a música para B.Boy/B.Girl antes de DJ Leacy e depois de DJ Leacy, essa contribuição é grandiosa e de muito valor para a cultura Hip-Hop e musical em geral. Leacy faleceu em 2004. Eu escutei muito uma mix que tinha do DJ Voodoo e em seguida uma mix com Breaks do DJ Q-Bert. E não poderia esquecer de DJ Hum, que me fez acreditar sem que soubesse que poderia ser possível tocar breaks no Brasil. Ouvi ele tocar em 1999, e foi incrível, me inspirou e arrepiou.

Nest:. Qual a importância do vinil e do garimpo? 

Groovy: Bem, não sei se a maioria das pessoas sabe, mas hoje eu vivo da venda de discos de vinil, eu tenho clientes no mundo da música dos mais variados seguimentos e de diversas partes do mundo. De diversas importâncias para a cultura Hip-Hop, pessoas que eu nunca imaginaria ter contato na minha vida algum dia se não fosse pelos discos de vinil, muitos estão me enviando listas de procura de discos, e possivelmente vou encontrar meus discos sampleados por grandes nomes da cultra Hip-Hop mundial.

Desta forma eu tenho vários pontos de vista e perspectivas sobre esse tema. Vou tentar não ser muito complicado e prolongar o assunto e sempre manter o foco no Hip-Hop.
Podemos começar apenas citando o fato da arte e cultura envolvida.
Mas, vamos lá. Eu tenho clientes DJ's e produtores que produzem para grandes grupos de RAP no mundo de grande importância para a cultura e outros DJ's famosos de outros seguimentos fora da cultura Hip-Hop. E quando se trata de cultura, é importante que se tenha um embasamento no que se faz. É como fazer Foot Work e não saber porque, ou o que seria o CC? Faço porque todo mundo faz? Fazer Top Rock qualquer um faz, Foot Work e Freeze talvez qualquer pessoa que treinar também fará.

Mas porque faz? Quem criou? Quando? Onde? E essas respostas todas eu fui atrás de forma insistente e agressiva.
E quando se sabe todas essas coisas fica mais fácil se desenvolver os passos e até mesmo criar algo na dança e em qualquer arte e cultura.
Quando o embasamento teórico é forte e profundo tudo se encaixa, como em peças de quebra-cabeça.
Tocar, discotecar, turntablism são as mesmas bases da dança. Respeito, dedicação e admiração são frutos do trabalho. A importância dada para um DJ no Brasil não é mesma dada para um Dançarino, existe uma grande diferença, desigual. Quantos eventos eu já vi em que um Telefone celular tocava as músicas para se dançar? Acredita mesmo que nós DJ's ficamos felizes quando pegamos um flyer e não encontramos o nome dos DJ's?
Se estamos na cultura Hip-Hop que foi a cultura que sempre valorizou os Deejays e que nos anos 90 praticamente ressurgiu com a cultura do DJ, e teve sua valorização, porque aqui no Brasil nós temos tanto desprezo por parte de produtores de evento e “fazedores” de festa? Porque precisamos praticamente implorar para tocar?
Porque o jurado ganha e o DJ não ?
Tocar com vinil ou Serato talvez não importe, se o fato é a música!
Mas aqui falamos de cultura Hip-Hop e VINIL!!!! Vinil está inserido na cultura Hip-Hop tão fortemente que acredito que apenas para o Rock ou Música eletrônica se perca ou empate, em termos de números.



Seria o vinil apenas uma ferramenta? Como o tênis para o B.Boy ?
Então também pode deixar um telefone tocando e pronto. Se o fato que importa é simplesmente a música... Isso é um grande desrespeito a cultura da qual nós fazemos parte!
Eu não sei dançar, mas poderia faze-lô, para sei la, de repente, poder poupar  algum custo com um dançarino, mas existe alguém que dança na cultura, e eu respeito o trabalho desse dançarino, ao chama-lo para um Work-Shop, palestra ou julgar uma batalha em um evento, pagando o que ele mereça, ou até mesmo na intenção de paga-lo ainda mais pelo trabalho, dando a ele as melhores possibilidades de “trabalho”, é reconhecimento, merecimento. Se fosse assim, eu teria de além de ser Graffitieiro, DJ, Dançarino e MC, advogado também, medico, etc...
É importante que as pessoas entendam que cada um tem seu papel na cultura, não que eu não possa dançar, mas faça-o direito, dedique, não faça apenas por fazer, ou porque o DJ não toca as músicas que eu quero, pois isso vai certamente acontecer com você no futuro, pois tocar todas as músicas que todo mundo quer não tem como.
Eu já recebi criticas de B.Boys/B.Girls, e sempre dizia para eles observarem sua dança, antes de criticarem qualquer outra pessoa dentro ou até fora da cultura.
Alguns dançarinos vêm reclamar conosco sobre o volume do som, como se a culpa fosse nossa. E coisas do tipo. A luz acaba e todo mundo: “Êêêh dj” ?
Se for assim daqui um tempo teremos jurados virtuais, onde ele poderá julgar uma batalha pelo Skype ou outra parafernália eletrônica qualquer.

Eu parei de tocar um período por isso, se para participar de um evento eu tenho de implorar ou me oferecer para tocar de graça eu não vou, eu gosto de tocar com vinil, mas se for um empecilho para o evento me transportar por conta dos discos, eu prefiro ficar em casa. Se tiver de disputar com outros DJ's o “valor” ou “preço” do meu trabalho, eu não vou. Não é um leilão.
Já escutei coisas do tipo, mas o outro DJ me cobrou R$ 100,00 e ainda vai levar seu equipamento, porque está me cobrado R$ 500,00?? Se para o organizador é um saco ter de me buscar porque vou tocar com vinil, e existe outro DJ que desenvolva o trabalho com Serato, pode leva-lo. Eu não quero “facilidades”, quero desenvolver meu trabalho, eu não ligo de carregar case lotado de discos, é pesado, é, sim, mas a recompensa é maior.
Neste caso eu prefiro ficar em casa. Eu não tenho uma coleção vasta de Compactos para deixa-los em casa guardados.

Seria como ter uma coleção de tênis e não usa-los para não gasta-los.
Porque se for o Q-Bert, Shadow, Cut Chemist (nada contra nenhum deles) e outros DJ's estrangeiros virem tocar no Brasil eu vou, mas meu “amigo” que esta todo dia garimpando, gastando o que não tem muitas vezes com equipamentos e discos, etc e que mora no meu bairro eu não vou...
É preciso... Necessário se ter uma ótima base teórica, para se partir para pratica. E a teoria no caso dos DJ's é partir para o sebo, garimpar, achar as batidas que ainda não foram ouvidas ou descobertas, é pesquisa seria, verdadeira. É ter a coragem e sabedoria de tocar “Os Caçulas” numa final de batalha da Circle Princz Sudamerica e ser aplaudido e não vaiado.

Vídeo que rodou o mundo inteiro e muitos B.Boys e Deejays me procuram até hoje por conta disso...
Eu garimpei, achei o compacto, escutei e não tive duvida, esse era o som que eu iria tocar na final! Não perguntei para ninguém. Nem mesmo para o Bruno B.Boy (que hoje mora na Alemanha) que fazia comigo a Circle Princz. Eu sei o que faço, estou dentro da música, a cultura Hip-Hop é meu estilo de vida... É ao meu ver o básico, o minimo que tenho a fazer, se propus a tocar, tenho de pelo menos fazer os cortes certos e mixar as músicas que são para mixar.
Na Batalha Final, onde toquei e Crazy Legs foi jurado e pediu uma música Brasileira que é bem conhecida mundialmente e por todos, Samba Soul, Mambo Nº 5, eu não estava nos toca discos no momento que ele pediu a música, nenhum outro DJ no evento tinha esse som, foram me chamar em outro local da festa, eu cheguei e todos estavam esperando por mim para tocar a música que Crazy Legs queria dançar para ser apresentado como jurado, foi incrível o que aconteceu, mas parecia que ali, só eu sabia o que estava acontecendo, alias, eu e o Crazy Legs, foi uma sintonia muito legal, eu toquei o som inteiro, do incio, pois já estava “atrasado”, fiquei aflito e cheguei soltando o som, ele olhou pra mim balançou a cabeça como quem diria não, não é essa, e ficou andando na roda, ele leu meus labios pois estava me olhando e eu disse “Break?”, ele disse “Yes” e fez sinal de positivo com as duas mãos... Eu voltei a faixa e soltei no Break da música, só assim ele entrou e fez sua performance participando como jurado e ainda me agradeceu...

Toda minha teoria, pesquisa e estudo naquele momento valeu, foi de grande importância, uma especie de confirmação. Eu pensei no final do evento, ufa, eu estou certo...
E uma serie de outras informações que foram sendo buscadas ao longo do tempo.
A pouco pesquisava eu novamente sobre música para B.Boy/B.Girl e me veio algo escrito por Mr Wiggles e Inot, bem esse texto merece meu respeito, tenho traduzi-lo e lê-lo... Pensei...
Eu acredito que a maioria dos dançarinos nunca ouviu falar em “Síncope”.
Este texto diz o seguinte: “A Síncope na música, seria a introdução de uma “quebra” na bateria, em outras palavras uma interrupção do fluxo regular de ritmo. A colocação de tensões rítmicas ou acentos onde eles normalmente não ocorrem”. Dai eu te pergunto, o texto fala que através da Síncope que é muito utilizada (técnica) no Funk e Rock Groove, possibilita que o dançarino dançe Breakin. Sendo a música ideal, pois a bateria “quebrada” possibilita dançar e desenvolver o Top Rock e Foot Work, que são feitos sobre as quebras das baterias que também são muitas vezes utilizadas para “virar” cortar os breaks...
Em outras trocas de ideias, desta vez com Ahmjad que organizou o Circle Kingz, ele me deu uma nova perspectiva da música para dançar Breakin, em 2010 tive contato com ele, e o que ficou pra mim, foi a frase: “Os B.Boys e B.Girls hoje devem dançar em toda música, não apenas nos Breaks, os breaks são muito importantes não devemos jamais esquecer, mas os jurados querem ver como os dançarinos estão se portando dançando em toda música”.



Nest:. Conte-nos alguma história inusitada que você teve em todos esses anos de garimpo? 

Groovy: Nossa... Tenho muitas, mas muitas... Vivo o garimpando discos desde meus 11, 12 anos quando ainda comprava discos de Rock com meu irmão em Belo Horizonte...
Em BH existe um Jornal chamado “Jornal Balcão”, se trata de um jornal impresso que não cobrava por seus anúncios, mas sim por vendas e tiragem de exemplares. Eu como bom mineiro, comi quieto ali por muitos anos, criei um login no Jornal via internet, e publiquei o seguinte anuncio:
“Compro discos de vinil, nacionais internacionais. Lps e compactos”.
Meu Deus meu telefone tocava o dia todo com muitas pessoas me oferecendo de tudo, de equipamentos a discos coloridos para decoração.
Nos fins de semana, com alguns amigos, saia a caça dos discos na casa das pessoas... Muitas historias engraçadas e lugares estranhos fui a busca dos discos de vinil. Alguns lugares cheguei a ficar com medo.
Entre elas uma muito me chamou atenção, uma senhora me liga, umas 3 vezes insistindo e oferece alguns discos, isso por volta de 2 semanas, não entrou em detalhes nem me dizia a quantidade, nem nada, em uma das ligações, resolvi ir a sua residência, ao chegar na casa, o irmão dela havia falecido e deixado os discos dele, de uma rádio que ele tinha, meu Deus eram milhares de discos de vinil.
Daí veio a pergunta básica: “A senhora vende qualquer quantidade?” E a resposta veio como música para meus ouvidos: “Sim, pode escolher a vontade”... Fiz a limpa e consegui muitos, mas muitos discos raros de música brasileira.

Outra história que me fez emocionar, foi a descoberta da música de Pery Ribeiro, Ciladas. Em casa ouvindo e vendo o documentário de Skeme Richards e B.Boy Inot sobre musica para B.Boy/B.Girl, escuto uma música que me chama atenção e que eu não conhecia... Bem, depois disso, ainda morando em BH, fui algumas semanas depois para SP, na loja de um amigo ele me oferece alguns discos de promoção que estavam ainda pelo chão da loja, entre eles estava a trilha sonora da novela da Rede Globo, O Espigão, gravada pela Som Livre, e, de curiosidade, por conta da participação do Grupo Azimuth, que tinha a curiosa grafia “Azimute”, fui ouvir o disco. E nele continha a faixa Ciladas de Pery Ribeiro, a mesma faixa que ouvi no documentário de Skeme e Inot dias antes. Em alguns segundos ouvindo a faixa na loja, senti que sai de orbita e entrei em outro mundo, estive fora de mim alguns segundos naquele momento, que me marcou muito...



Nest:. Um verdadeiro DJ de Hip Hop não vive longe dos b.boys, diga qual sua relação com o breaking atualmente e como tem enxergado a cena atual.

Groovy: Minha vida com o Breakin só não é maior porque não danço!
Eu tenho ficado triste com a relação que existe hoje entre a dança e os dançarinos, pois hoje é muito mais visual que fundamental. Hoje se tem preço não valor. Foi por esses motivos que eu dei um tempo, e estou voltando agora, sem a pretensão de querer mudar nada ou impor nada. Cada um faz o seu e respeita o do outro. E também não quero tocar em todos os campeonatos.
Mas sinto que se não dermos um tempo, e voltarmos um pouco ao passado, dando valor a dança, aos passos e fundamentos e assim em todos os termos e elementos da cultura Hip-Hop, vai ser difícil daqui um tempo... Pois a cultura está se perdendo.

Foi o que disse na pergunta anterior, fazer Top Rock, Foot Work, Freeze, talvez qualquer um no mundo faça, mas dançar é diferente. Hoje eu não toco em qualquer evento, toco no evento que eu quero e que pretende ser realmente voltado para a cultura, como o Battle in the Cypher...
Tocar você vai tocar, dançar, graffitar, cantar... Mas tocar um som que você realmente descobriu, pesquisou, e nem é pelo preço de um disco, que muitos discos encontrei por R$ 5,00, é uma questão cultural, não se explica a dança, não se explica a música, ela existe, cabe ao dançarino estudar e saber o que faz, cabe ao DJ estudar e saber o que faz, e quem sabe até criar algo. Tocar apenas com compacto, ou tocar apenas músicas brasileiras, não é fácil, eu não comecei a tocar os sons nacionais porque sou Brasileiro, por uma questão patriota, mas por querer algo novo. James Brown, Incredible Bongo Band, Jimmy Castor são foda, não há nenhum som nacional que se equipare a esses artistas e grupos, mas existem alguns nacionais que são bons também. Pegue a coleção “Ultimate Breaks & Beats” que citei anteriormente, e pesquise, você encontrará, Italo-Disco, Funk, Rock, Blues, Disco Music, Música Brasileira, Jamaicana, Jazz e por ai vai...
É preciso que o Ken Swift venha ao Brasil e diga que os Break são trechos de músicas e que os B.Boys/B.Girls podem e devem dançar nos Breaks Brasileiros também? E que os Breaks não tem nacionalidade!!!

Nada é fácil mesmo em pleno 2016, estudar e pesquisar sobre Breakin ou DJing especifico das danças urbanas. Daí podemos incluir todos os estilos, Locking, Popping, Waacking, House, Rocking, Ragga, Hip-Hop Dance, Freestyle... E mais algum que talvez eu tenha esquecido. Pesquisar no Youtube é legal, pesquisar no SoulSeek é legal, são ferramentas adicionais, assim como o uso do Serato, e das tecnologias hoje existentes. Talvez um dia eu toque com um tablet. Mas são algo a mais, não podem ser a ferramenta principal, ou não podem ser apenas as únicas ferramentas utilizadas. Tocar com Serato foi um sonho, mas por imaginar tocar minhas próprias músicas. Imagina? Poder tocar uma faixa que você criou ? Produziu? Sampleou ? Descobriu?
Seria muito loco, agora imagina então tocar sua música, sua criação prensada no seu próprio vinil, 7” polegadas???? Quem sabe um dia...



Nest:.Quais os 5 discos de vinil que você possui considera mais importante e por que? 

Groovy: Poxa, assim vocês arrebentam tudo... KKKKKK

Eu vou começar com Coke Escovedo, i wouldn't change a thing.
Esta música tem muito significado para mim.
Quando começamos eu e o Alan (DJ), a tocar os Funkys e Breaks nas festas, ouve uma grande mudança na dança no Brasil. Pois até então as festas só tocavam Electro, RAP e pouco Funk 80, mesmo assim no final das festas. Quando conheci o Alan por volta de 99, nos identificamos muito um com outro, pois tínhamos os mesmos discos e o mesmo gosto musical, procurávamos outros mesmos discos, daquelas coisas de dormir escutando uma música e acordar com a faixa na cabeça, e cantarola-la o dia todo. Neste período muitas pessoas falam que eu disse não gostar de Electro, não é isso, nós estávamos cansados de ouvir Electro... Electro... Electro... Eu adoro Electro, Miami, Freestyle...

Mas queríamos ouvir as músicas do BOTY e B.Boy Summit, e não só nós mas vários B.Boys/B.Girls. E assim começamos a mudar essa a postura nas festas de Breakin. Lembro de tocar numa batalha no Green em 99 numa das festas do Rooney e Ninja, a B.Boys Battle Party, nesta época eu já tinha dois Lps do Jimmy Castor, Marvin Gaye, Babe Ruth, vários volumes do Ultimate Breaks & Beats, e ouvi alguns B.Boys me dizerem no final da batalha que era a primeira vez que eles tinham ouvido só Funk numa batalha, que tinha sido uma experiência única para eles... Que não poderíamos parar nunca de tocar...
Coke Escovedo, foi uma dessas músicas que tocavam sempre no final das festas, era a ultima música das festas de Breaking.
Em uma das viagens do Alan DJ para BH, ele levou uma fita VHS, gravada com essa música para saber se eu conhecia. Ficávamos voltado a fita muitas e muitas vezes para escutar e gravar a música. Quem tinha o disco era o Ninja, mas não tinha capa. Ou seja, não tinha o nome do artista que cantava.
Ai meu Deus que sofrimento para descobrir. Nem sei quem descobriu e quando... Eu sei que quando encontramos a música, ela era guardada para um momento especial, como final de uma Batalha... KKK

Outra parte musical que me marcou foram as descobertas dos Lps brasileiros, bem, todo colecionador começa com Discos “bobos” como Djavan, Wando, Emílio Santiago, algumas coisas do César Camargo Mariano dos anos 80, e por ai vai, quando vi já estava envolvido até a cabeça...
Estava na galeria no centro de São Paulo, não me lembro o ano, mas foi por volta de 2002, 2003, eu e DJ Alan nos deparamos com a coletânea “Black Rio - Brazil Soul Power 1971-1980”. Nossa, dali eu conhecia Miele, Gerson Combo e Miguel de Deus... Tive de comprar o LP duplo, ao chegarmos em casa, ficamos abismados, com o encarte, capa dupla com vários flyers de festas do Rio e São Paulo do período Black dos anos 70. Só depois de algum tempo fui descobrir que a coletânea era do DJ Cliffy e a pouco tempo, conversando com Carlinhos da loja Disco Sete no centro de SP, me disse que ele conseguiu os discos originais e alguns flyers e parte da historia do encarte do disco com o ele...


Eu tenho comprado muitos compactos, de amigos produtores de outros países, pois estão lançando muitas coisas no formato 7” polegadas, para minha alegria e tristeza ao mesmo tempo (pois aja dinheiro)... kkkkkk
Compactos que saem 300, 500 copias apenas, e desaparecem em cerca de 12 horas das gravadoras... Um desses compactos foi produzido por Jorun Bombay, um remix de Funky Drummer, que sumiu em questão de horas do site, eu consegui duas copias e o compacto hoje está avaliado em mais de R$ 1.000,00... Algumas coisas que alguns produtores criam estão assim, somem muito rápido, você hoje precisa estar antenado, com grana no paypal, e ser rápido, pois o garimpo hoje também é virtual...

Outro disco que marcou e eu nunca tive, foi Reuben Wilson com got to get your own... Ainda terei o compacto. KKK
Esse disco não furou não sei porque. Quem tinha o LP era o DJ Alan, escutávamos essa faixa por varias horas... Não precisa dizer porque, procure, ouça, tire suas próprias conclusões...

Pra fechar pois são apenas 5, apesar de já ter falado de mais de 5... kkkk
A descoberta dos sons latinos, os Latin Funk foi algo que novamente mexeu comigo, Los Tios Queridos, Tito Puente, Ray Barreto, e muitos outros, e tantos outros sons Espanhois que se confundem, por serem em Espanhol.
Um deles me marcou, Los Angeles – evolucion, este ainda não tenho em Compacto mas está na minha lista de procura. Infelizmente não saiu no Brasil, mas vamos consegui-lo...

Nest:.Algo que queira dizer para os outros DJs ou adeptos da Cultura? 

Groovy: Já disse bastante, mas nunca é demais...
Estude, pesquise, leia, leia muito, fuce, garimpe, escute... Observe!!!
Seja exemplo!!!


2 comentários:

Edivânio disse...

História foda!

Guilherme Botelho disse...

Grande amigo, grande artista e ótima entrevista.
Dos amigos que tocam, o Groove é um dos maiores conhecedores de discos que conheço.
Abraço