Entrevista Nest - B.girl Jack Keysy | Nest Panos

Entrevista Nest - B.girl Jack Keysy

Publicado: 23/01/2019



A convidada desse rolê hoje é B.girl Jack Keysy de Campina Grande- PB representante da SoulBrazil Crew, falando um pouco sobre Breaking, sobre ser B.girl, música... O intuito das entrevistas é conhecer um pouco da visão da galera quanto a dança mas também um pouco sobre seus corres. Acompanha aí, hoje com a Jack!

Quando você teve seu primeiro contato com o Breaking?

Meu primeiro contato com o Breaking foi em 2008 em um workshop ministrado pelo Bboy subzero de João Pessoa na Paraíba, eu dançava coreografias no grupo de dança da escola participava de festivais colegiais, mas quando eu fiz esse workshop foi uma sensação muito diferente das que eu estava acostumada. No começo de 2009 fui a um evento em Picuí, no interior da Paraíba, e foi aí que me apaixonei mesmo eu via os Bboys dançando freneticamente na música e o footwork foi o que me chamou mais atenção. Vi as cyphers e tinha uma menina, Bgirl anjinha de João pessoa, que me inspirou muito voltei para minha cidade muito animada para treinar e incentivei a Jéssika, conhecida como Bgirl Pekena, a treinar junto pois a gente já dançava junto em um grupo de danças urbanas. Fomos convidadas a participar do Guerreiros do Ritmo Crew e foi aí que tudo começou.


Como você vê a dança? Pois muitas meninas ou não começam ou param por achar os passos difíceis, como você burlou essa ideia e persiste?

Eu vejo a dança de um modo geral um lugar de autoconhecimento e autoafirmação. No Breaking isso é cobrado desde que se começa a dançar é o chamado ‘’flavor’’ mas quando a gente começa a dançar ninguém fala para a gente como que encontra ‘’seu estilo’’ ou ‘’sua identidade’’ só dizem que temos que fazer. As mulheres são minoria na cultura hip hop e no breaking a diferença é enorme isso resulta a falta de representatividade no meio, muitas não começam a dançar pelo fato dos pais e amigas (o) falarem que é ‘’dança de homem’’ ou por timidez de treinar no meio de tantos homens, estamos falando de mulheres e cada uma tem sua personalidade não somos iguais. Muitas param por vários motivos e diferente do que muitos pensam está longe de ser porque os passos são difíceis, algumas param por vários motivos: Porque engravidou, porque precisa trabalhar, relacionamento abusivo, assédio, falta de tempo, por causa dos estudos, ou simplesmente porque não se encaixava nesse estilo de vida. Não são os passos que são difíceis na verdade, difícil mesmo é resistir todos os dias com as piadinhas e ofensas. Eu resisto todos os dias e tem dias que não é fácil, tem dias que parece que não está valendo a pena e estou dando murro em ponta de faca, mas respiro fundo e procuro estudar mais nesses momentos e me inspirar em mulheres fortes, assim vou seguindo.

Como você vê a cena de meninas sendo fomentada no Brasil?

Eu vejo uma cena linda! Hoje em dia somos muitas no Brasil e isso têm crescido muito no decorrer dos anos, as mulheres estão mais presentes em eventos e estão se posicionando mais, estamos nos empoderando. Existe um evento chamado Batom Battle idealizado pela Fabgirl de Brasília que reúne Bgirls de vários estados brasileiros, percebo que várias Bgirls se fortaleceram através desses encontros sabe? Rodas de conversas, battles, palestras, workshops isso tudo têm se ramificado para outros lugares, hoje em dia existem vários eventos com o intuito de visibilizar as Bgirls e isso é muito importante. Acredito que a próxima geração terá muita representatividade em suas cidades, estados e isso está sendo construído por mulheres de canto a canto do país.

Recentemente estivemos com você no evento Batom Battle, fale um pouco sobre o evento e se você recomendaria para outras B.girls e para os próprios B.boys?

A Batom Battle é um evento de utilidade pública (rs), a primeira vez que fui a esse evento foi em 2013 e desde então não deixei mais de ir, eu nunca fui acostumada a ir em eventos que houvesse palestra e roda de conversa e foi com isso que eu me deparei de cara quando cheguei, todas falando de suas experiências e eu falava pra mim mesma : ‘’eu já vivi isso’’ ‘’já aconteceu isso comigo ‘’ pera, eu não estou sozinha’’... Foi essa a sensação que tive de estar em casa com irmãs que não conhecia, me reconheci Bgirl depois desses encontros e descobri a importância do estudo e do conhecimento. O evento vem crescendo muito e a cada edição só surpresas. Realização de workshops, battles nas modalidades Bgirl 1vs 1 e Bonnie & Clyde e mostra de dança que possibilita as Bgirls e bboys pensarem o breaking em outra perspectiva criativa e cyphers, muitas cyphers com umas Djs maravilhosas!!!! Recomendo a todas a Bgirls e mulheres militantes do Hip Hop e principalmente aos Bboys, é muito importante a presença deles pois é uma oportunidade de ver a cena com outro olhar, ouvir as pessoas e é um lugar de fala também. 

Você se sente à vontade dançando em que estilo musical, pode nos dar uma playlist (10 músicas)?

Meu gosto é muito eclético, gosto muito de rap underground e gosto bastante de Soul brasileiro. Acredito que as músicas brasileiras podem ser bem exploradas para dançar breaking. Porém, eu gosto muito de conhecer outras culturas, danças e a própria cultura de minhas raízes. Ultimamente eu tenho me sentido mais livre buscando não me rotular em estilos, em meus experimentos procuro deixar fluir de acordo com o conhecimento que meu corpo adquiriu no decorrer desses anos, fiz uma playlist bem diversificada de músicas que me inspiram em criações e que conversam com minha dança.


1- Sugarhill Gang Apache- Jump on it

2- The Fugees- Ready or not

3- Nina Simone – Feeling Good

4- Madonna- Into the Groove

5- Canto de Ossanha- Baden Powell e Vinícius de Moraes

6- Cartola- Preciso me encontrar

7- Di Melo- A vida em seus métodos diz calma

8- Kool & the gang – Fresh

9- Bell Biv Devoe- Poison

10- Grandmaster Flash & The Furious Five- The Message


Por fim, resuma um pouco sua trajetória.

Sou de Campina Grande na Paraíba em 2009 comecei a dançar Breaking com 19 anos no Guerreiros do Ritmo Crew onde viajei muitos estados participando de batalhas e apresentações e onde aprendi grande parte da base técnica que tenho do breaking. Em 2011 iniciei meus estudos em dança contemporânea e ballet clássico junto com alguns bboys de minha cidade onde fundamos juntos a crew SoulBrazil com o intuito de estudar as técnicas que estávamos adquirindo junto com o breaking, realizando apresentações na cidade como resultado do processo. Cada um seguiu em frente com o que queriam e fiquei seguindo em frente com a crew em 2013 Bgirl Pekena e Bgirl Tati se juntou ao SoulBrazil e continuamos a trabalhar com espetáculo de acordo com as vivências de cada uma.
Depois disso tive experiências com Jazz Dance, danças populares, dança de salão e outras vertentes das danças urbanas. Atualmente curso Licenciatura em Dança na UFPB, sou professora, coreógrafa, dançarina e pesquisadora, mas acima de tudo sou Bgirl e militante.
Depois disso tive experiências com Jazz Dance, danças populares, dança de salão e outras vertentes das danças urbanas. Atualmente curso Licenciatura em Dança na UFPB, sou professora, coreógrafa, dançarina e pesquisadora, mas acima de tudo sou Bgirl e militante.


Oque você gostaria de dizer a todos os Bboys e Bgirls, uma ideia, um desabafo….

Bem gostaria de dizer que não precisamos de ‘’like’’ e de visualizações para fazer as coisas acontecerem, a tecnologia têm nos ajudado muito mas vejo muitas opiniões nas redes sociais e não vejo encontros presenciais para discutir e argumentar sobre o ponto de vista de cada um, têm sido um momento complicado nas redes sociais cada um entende de uma forma e não tem uma sinceridade sabe? Acredito que ninguém é obrigado a amar o outro, nem a gostar, mas respeitar é essencial e estamos no mesmo barco no final das contas. Bboys escutem as Bgirls procurem entender e conversar em vez de julgar, Bgirls procurem estudar e conversar com Bgirls e Bboys sobre a cena Bgirling.
Estamos aqui para aprender uns com os outros cabe a nós escolhermos como.


Obrigado Jack por compartilhar e somar conosco, desejamos muito sucesso na sua caminhada.

Inspiração B.girl!



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